Para reflexão

Qual das duas cenas dá mais saudade à  mulher que disse ‘volta pra senzala’?

Mário Magalhães

 30/05/2016 10:53

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No derradeiro quarto do século 19, um quilombo abolicionista nasceu numa colina do Rio e se tornou conhecido como Quilombo do Leblon. Hoje um clube funciona no mesmo lugar, no chamado Alto Leblon.

Quase um século e meio depois do Quilombo do Leblon, o bairro testemunhou no sábado uma cena dos tempos de casa grande e senzala.

A dona de casa Maria Francisca Alves de Souza dirigiu-se furiosa ao gerente do Zona Sul, contrariada porque um funcionário do supermercado não pôde sair do caixa e fazer uma compra para ela.

De acordo com testemunhas, pronunciou as seguintes frases: “Volta pra senzala!”; “Volta pro quilombo!”

O gerente é negro.

O repórter Daniel Tarqueta chegou em seguida e fez um vídeo valioso. A mulher foi presa por injúria racial.

Ali, na calçada da rua Dias Ferreira, Maria Francisca alegou que exaltara a raça negra: “Olhem as senzalas das telas de Debret”; a menção ao quilombo seria reverência a Zumbi dos Palmares.

É possível supor o que a senhora sugeria com o regresso às senzalas documentadas pelo artista francês Jean-Baptiste Debret em sua longa temporada, 1816 a 1831, no Brasil escravagista.

Seus desenhos, pinturas e gravuras retratam o cotidiano dos africanos escravizados e seus descendentes.

A aquarela sobre papel, no alto do post, intitula-se “Um jantar brasileiro”. Debret escreveu: “No Rio de Janeiro e em todas as outras cidades do Brasil, é costume, durante o tête-à-tête de um jantar conjugal, que o marido se ocupe silenciosamente dos seus interesses e a mulher se distraia com os seus negrinhos, que substituem a raça dos cachorrinhos ‘Carlins’, quase extinta na Europa. Esses molecotes, mimados até a idade de cinco ou seis anos, são em seguida entregues à tirania dos outros serviçais, que os domam a chicotadas e, assim, obrigam-nos a compartilhar as penas e os desgostos do serviço”.

A outra ilustração mostra como o pau-de-arara, instrumento empregado em tortura nos séculos 20 e 21, é herança longeva da escravidão.

A vida na senzala era o interregno entre a condição de bicho de estimação de madame, as sessões de açoite em que os feitores castigavam os escravos e o trabalho árduo que enriquecia bolsos alheios.

De qual das duas imagens de autoria de Debret a mulher do Leblon tem mais saudade?

Para ter saudade, não é preciso ter vivido. Basta querer ter vivido.

O episódio do sábado evidencia que, para muita gente, o Brasil tem que se eternizar como terra de senzalas e casas grandes.

De algum modo, tamanha a desigualdade, o país ainda reproduz a velha época.

No Quilombo do Leblon, plantavam camélias, símbolo do movimento pela Abolição.

Caetano Veloso e Gilberto Gil, numa canção recente, cantam o quilombo de outrora e dizem que “as camélias da segunda abolição virão”.

P.S.: as duas obras acima foram pescadas do livro “Debret e o Brasil: Obra completa – 1816-1831″, de Julio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, Capivara Editora.

(O blog está no Facebook e no Twitter )

Texto do Blog do Mario Magalhães

 

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